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De Panini a Labov. Um Breve Passeio pela História dos Estudos Linguísticos

Studienarbeit 2018 24 Seiten

Romanistik - Portugiesische Sprache, Literatur, Landeskunde

Leseprobe

DE PANINI A LABOV:

UM BREVE PASSEIO PELA HISTÓRIA DOS ESTUDOS LINGUÍSTICOS

José Geraldo Pereira Baião

"Não existe saber sem memória nem ciência sem passado." (Mario Alexandre Cruz, tradutor)

A origem da linguagem humana remonta a um passado longínquo da história de nossa espécie.1 A própria noção de humanidade só é possível porque o sistema linguístico a constitui e fundamenta, fazendo com que nos concebamos simbolicamente como pertencentes a uma mesma espécie dotada da capacidade de interagir socialmente por meio de signos. Portanto, é impossível dissociar as concepções de humanidade e linguagem, já que uma implica a outra: o ser humano se concebe simbolicamente a partir do fenômeno linguístico, e este constitui uma característica fundante da espécie humana, ou, nas palavras de MIOTO (p. 15), "as línguas naturais têm uma ligação estreita com o que é definidor da natureza humana". No mesmo sentido, segundo CASTILHO (p. 33), "as línguas naturais são o ponto mais alto de nossa identidade como indivíduos e como participantes de uma sociedade", e essa perspectiva da característica fundante da linguagem em relação à condição humana não passou despercebida aos cientistas sociais, como se observa nas palavras do antropólogo Claude LEVI- STRAUSS (p. 371): "Quem diz ser humano diz linguagem, quem diz linguagem diz sociedade".

É a língua que possibilita que convivamos em sociedade, constituindo-nos como sujeitos, que interagem uns com os outros a partir de um espaço simbólico comum. A linguagem nos possibilita constituir identidades e, assim, interagir socialmente. Enfim, é por meio do sistema linguístico que nos inserimos na realidade histórica e concreta do mundo. A língua constitui, pois, o cimento que possibilita a estruturação tanto social quanto cognitiva dos seres humanos, ou, nas palavras de OTHERO e KENEDY (p. 9):

"A linguagem humana, na forma de uma língua específica, é o fenômeno biossocial responsável pela organização mental da vida interna de um indivíduo e pela cooperação comunicativa que dá à luz as sociedades organizadas."

A onipresença da linguagem em relação à condição humana fez com que os seres humanos nos debruçássemos, desde priscas eras, sobre o estudo do fenômeno linguístico. Constituindo uma característica tão essencial e mesmo fundante de nossa existência, a linguagem sempre despertou o interesse dos seres humanos. Desde os primórdios da humanidade, a língua exerce-nos enorme fascínio, pois é por meio dela que nos identificamos como seres humanos em contraposição aos outros animais, que não dispõem de um sistema simbólico com o grau de sofisticação e complexidade apresentado pela linguagem humana2.

Os primeiros estudos formais que nos chegaram acerca da linguagem humana remontam à India antiga. E do sábio Panini (520 a.c. - 460 a.c.) uma das primeiras sistematizações linguísticas de que se tem notícia. Panini descreveu o sànscrito clássico, criando, assim, uma espécie de primeira "gramática" da história da humanidade.

A respeito dos pioneiros estudos de Panini, escreve-nos BENVENISTE (p. 30):

"Temos aí algo de extraordinário, uma descrição linguística puramente formal que data, segundo a estimativa mais prudente, do século IV antes de nossa era. Panini, este gramático indiano, tomou a língua sánscrita como objeto. Não tem nenhuma palavra de especulação filosófica, mas somente uma análise formal dos elementos constituintes da língua (palavras, frases, relações entre palavras, etc.). Este texto é extremamente pesado, de uma densidade inacreditável [...] já se mostra aí o ancestral das pesquisas científicas de hoje."

No Ocidente, um dos primeiros estudos de que temos registro acerca da natureza da linguagem encontra-se no diálogo Crátilo, escrito por Platão (428 a.c. - 348 a.c.). Nesse clássico confabulam três personagens: Crátilo, Hermógenes e Sócrates. Os dois primeiros debatedores assumem posições antagónicas acerca da natureza do fenômeno linguístico em sua relação com o mundo físico ou natural, enquanto Sócrates propõe uma posição intermediária em relação à controvérsia levantada pelo texto platónico.

Para Crátilo, a linguagem partilharia uma relação de semelhança com a realidade em que nos situamos. Assim, imbuído de uma concepção esteada na analogia, argumenta que o fenômeno linguístico retrataria analogicamente o que existe e ocorre no mundo fenomenològico. A argumentação de Hermógenes vai em sentido oposto à defendida por Crátilo, ou seja, a de que a língua não manteria uma relação de analogia com a realidade, constituindo-se, ao contrário, a partir de uma mera convenção social do espírito humano e, portanto, caracterizada pela arbitrariedade ou imotivação dos signos que a compõem. Não haveria, nessa perspectiva, uma relação natural e necessária de analogia entre as palavras e os seres, coisas ou fenômenos evocados pela linguagem.

Exemplifiquemos a argumentação proposta por Hermógenes: a pessoa que navega os mares pode ser chamada de "marinheiro" em português, "sailor" em inglês e "nauta" em latim. Mesmo em relação à língua portuguesa, ao lado de "marinheiro" poderíamos também dizer "navegante", "navegador", "mareante" e "marujo" para aludirmos a um mesmo referente. Se houvesse uma relação analógica necessária entre linguagem e mundo natural, a designação linguística para "aquele que navega os mares" (ou qualquer referente do mundo biopsicossocial) deveria ser uma só, independentemente da língua empregada. Mas não é isso que se verifica ao compararmos os diversos idiomas, pois cada um, em função do meio social que o engendra, apresenta suas estruturas linguísticas próprias para constituir e designar a realidade. A própria existência das diversas línguas humanas por si só constitui uma sólida constatação dos argumentos propostos por Hermógenes.

Vejamos como PLATÃO (p. 43-44) reproduz a proposição de Hermógenes, a qual destoa da argumentação levantada por Crátilo:

"Crátilo dizia que cada um dos seres tem um nome correto que lhe pertence por natureza [...] não sou capaz de me deixar persuadir de que a correção dos nomes seja outra coisa além da convenção e do acordo. Parece-me que aquele nome que alguém puser a uma coisa, esse será o nome correto; e se de novo o mudar, e já não lhe chamar aquele, o segundo em nada será menos correto do que o primeiro [...] nenhum nome pertence por natureza a nenhuma coisa, mas é estabelecido pela lei e pelo costume daqueles que 0 usam." (Destaque nosso)

A terceira personagem do diálogo, Sócrates, procura mostrar que tanto alguns aspectos da concepção anomalista de Hermógenes quanto determinados pressupostos analogistas de Crátilo possuem o seu fundo de verdade. Sócrates tanto argumenta que "é de certa maneira necessário que a convenção e o costume contribuam para mostrar aquilo que temos em mente quando falamos" (PLATÃO, p. 117) como afirma também que "quando alguém souber como é o nome - e ele é como a coisa -, saberá também o que é a coisa, uma vez que lhe acontece ter semelhança ao nome" (idem, p. 118 - destaque nosso).

E da cultura grega que herdamos o conceito tradicional de gramática como um repositório ou receituário para o "bom uso" da língua a partir de um paradigma preestabelecido. No século III a.c., os filólogos alexandrinos, em face da edificação da biblioteca de Alexandria, depararam-se com vários manuscritos clássicos corrompidos em função das inúmeras versões então existentes. Procurou-se, então, restaurar os textos originais e, paralelamente, foram-se registrando anotações e comentários que visavam a elucidar, para os leitores da época, a língua clássica do passado. COLOMBAT et ai (p. 90-91) apontam para o estreito vínculo entre filologia e gramática e, sobretudo, para o caráter instrumental e utilitário desta última para a leitura de textos de viés literário:

"O fato de reunir e conservar uma grande massa de textos, necessariamente composta em tempos e lugares diferentes, implica, para que seja mantida a possibilidade de lê-los, o desenvolvimento de uma filologia, a disciplina que tem por objeto o conhecimento das suas particularidades gráficas e linguísticas. Isso produziu, por seu turno, instrumentos técnicos dos quais o leitor pode se equipar [...] A gramática é, com efeito, um desses instrumentos técnicos [...] [As gramáticas] não são, de fato, obras teóricas, mas manuais que seguem uma finalidade prática: instrumentar o leitor, possibilitar que ele leia textos dos 'poetas e dos prosadores."

A partir desses comentários e anotações intentou-se catalogar um modelo de língua que servisse aos fins burocráticos do império bem como figurasse como paradigma de perfeição para quem se aventurasse pela exegese ou pela prática da escrita literária em grego. Tomou-se como ideal de excelência a língua literária grega baseada nas obras dos grandes escritores da Grécia clássica, sobretudo Homero (autor que viveu por volta do ano 1.000 antes de

Cristo), criador de obras fundantes e monumentais da literatura ocidental, como a Ilíada e a Odisseia. Nesse contexto, segundo NEVES (p. 113):

"Era para facilitar a leitura dos primeiros poetas gregos que os gramáticos publicavam comentários e tratados de gramática, que cumpriam duas tarefas: estabelecer e explicar a língua desses autores (pesquisa) e proteger da corrupção essa língua 'pura' e 'correta' (docência), já que a língua cotidianamente falada nos centros do helenismo era considerada corrompida. E, servindo à interpretação e à crítica, realiza-se o estudo metódico dos elementos da língua e compõe-se o que tradicionalmente seria qualificado propriamente como gramática."

Dessa descrição da língua literária grega baseada nos autores clássicos do passado nasceu o nome gramática3, que em grego significa "a arte da escrita". Vê-se, assim, que as origens das prescrições gramaticais remontam a estudos de caráter filológico, ou seja, tratados que versam acerca de textos escritos literários de épocas passadas, conforme se lê na mais antiga gramática grega que chegou até nós, de Dionisio da Tràcia, no século II a. c: "A gramática é o conhecimento prático dos usos gerais de poetas e escritores de prosa" (apud LOBATO, p. 80).

Provém desse fato o recorrente desprestígio, ao longo dos séculos, com que a tradição gramatical no Ocidente sempre tratou as modalidades faladas ou orais da língua, bem como qualquer uso linguístico que destoe do modelo idealizado nos compêndios gramaticais tradicionais.

Para os gramáticos alexandrinos, só empregaria o idioma com correção e, portanto, com perfeição, quem seguisse o padrão da língua escrita literária catalogada na gramática por eles elaborada. Tudo o que desviasse desse paradigma linguístico clássico era considerado "vulgar", "decadente" e "bárbaro" (este último, um vocábulo cujo viés significativo era dos mais execráveis para a elite letrada grega), uma vez que a preservação e a difusão de um modelo idealizado de língua representaram um de seus principais objetivos (cf. NEVES).

A respeito dessa sobrevalorização da escrita literária por parte da tradição gramatical que impera no Ocidente desde os antigos gregos, argumenta CASTILHO (p. 32):

"Não acho que os escritores trabalham para nos abastecer de regras gramaticais. Eles exploram ao máximo as potencialidades da língua, segundo um projeto estético próprio. Ora, as regularidades que as gramáticas identificam devem fundamentarse no uso comum da língua, quando conversamos, quando lemos jornais, como cidadãos de uma democracia. Isso não exclui a fruição das obras literárias, mas é uma completa inversão de propósitos fundamentar-nos nelas para descrever uma língua." (Destaque nosso)

Da concepção de desvio do padrão escrito literário catalogado na gramática tradicional como "corrupção" ou "deteriorização" de uma língua pretensamente "pura", "bela" e, portanto, "perfeita", nasceu a noção de erro linguístico, que vigora hegemonicamente até os dias de hoje em nossa sociedade. Segundo essa ideologia, qualquer uso linguístico que não se enquadre nos preceitos da gramática normativa não se revela sequer digno de estudo, já que visto, preconceituosamente, como desvirtuação que não seguiria regra de estruturação alguma - "linguajar de bárbaros", enfim.

A respeito do legado dos filólogos alexandrinos para a concepção de língua, seu estudo e respectivo ensino em grande parte do Ocidente^comenta BAGNO (p. 43-44):

"Para os filólogos alexandrinos, a oposição cruciai se dava entre fala e escrita. Para eles, grandes admiradores da produção literária do passado glorioso da Grécia clássica, somente a língua escrita literária merecia atenção, análise, descrição e teorização, e somente ela poderia servir de base para a prescrição de normas do 'bem falar'e do 'bem escrever'. Nessa visão, a fala era caótica e desregrada, o lugar do erro e do equívoco, enquanto a escrita (concebida como algo homogéneo) era límpida e regulada.

[...]

Com isso os alexandrinos definiram os rumos dos estudos gramaticais e da pedagogia das línguas por mais de dois mil anos. Acreditando na perfeição irrefutável da língua escrita literária, eles vão criar, com base nela, um modelo ideal de 'língua correta', que deveria servir de meta a ser alcançada por todo cidadão [...] Nem é preciso dizer que aí está a origem das noções de certo e errado que tanto estrago têm feito ao longo da história da humanidade."

Com a conquista dos gregos pelos romanos, no século II a.c., a concepção helência de gramática como repositório exclusivo da correção e perfeição linguísticas foi incorporada à gramática latina e, consequentemente, expandida por grande parte do vasto império de Roma.4 Deve-se notar, no entanto, que esse ideário gramatical circunscrevia-se exclusivamente às elites sociais letradas, já que a quase totalidade da população à época era composta de trabalhadores braçais e escravos, grupos sociais que se encontravam à margem das instâncias sociais de poder e, portanto, apartados também da cultura em língua escrita.

O acesso às modalidades linguísticas de prestígio sempre representou, nas sociedades humanas, um privilégio de uma pequeníssima minoria social. Como detentoras dos aparelhos ideológicos de Estado, as elites sociais nunca demonstraram, ao longo da história da humanidade, muita dificuldade em naturalizar socialmente sua concepção idealizada de língua como a suma verdade do saber linguístico, em flagrante desconsideração e menosprezo para com as variedades utilizadas por estratos sociais situados à margem do poder. A história está aí a demonstrar como a apropriação e respectiva imposição por determinada classe social de uma concepção hegemónica e elitizada de língua constitui mais uma estratégia ideológica, entre outras tantas, de manutenção do poder.

O cultivo do beletrismo, inspirado pela gramática tradicional, sempre constituiu atitude característica de pequeníssimos grupos da elite dominante e serviu, ao longo da história, como uma das muitas fronteiras ideológicas erigidas para separar os donos do poder - pretensos detentores exclusivos do saber linguístico - das classes social e economicamente desprestigiadas, que, na perspectiva da ideologia hegemónica, falariam uma língua "errada", "desestruturada" e, portanto, "bárbara".

Em relação à incorporação da concepção gramatical grega pelos romanos5, comenta CAMARA JR. (p. 27-28):

"A cultura romana aceitou e aplicou ao latim, em suas linhas gerais, o estudo da língua que os gregos haviam criado e desenvolvido. Mas a abordagem filosófica deu margem a uma gramática normativa mais estrita, o objetivo principal da gramática latina foi o que vimos chamando de 'o estudo do certo e errado'."

Se hoje, caro leitor, vamos a uma livraria e compramos uma gramática tradicional, levamos para casa uma concepção ideológica grega, forjada no terceiro século antes de Cristo, de viés marcadamente conservador e elitista, que se espalhou pelo Ocidente por influência do Império Romano, o qual acentuou ainda mais o prestígio de um pretenso modelo ideal de língua, baseado na escrita literária clássica, em detrimento das modalidades de uso efetivo do idioma.

A influência do latim como língua de cultura hegemónica europeia durou até o final da Idade Média. Com a formação dos primeiros Estados nacionais na Europa, no alvorecer da Idade Moderna, vão ganhando prestígio os diversos vernáculos6 ou línguas nacionais. Tal fenômeno se deve ao fato de um dos esteios do sentimento de nacionalidade constituir, justamente, a concepção de um pertencimento a uma mesma comunidade de língua. A própria noção de pátria representa uma construção linguística, que permite, por meio do discurso fundador da nacionalidade, a constituição simbólica de um pretenso passado social comum, muitas vezes mitológico e imaginário, que nem sempre se verifica nos fatos históricos concretos ou empíricos.

O poder simbólico da incorporação ao discurso fundador de uma concepção de língua nacional é ressaltado por BERENBLUM (p. 17):

"A nação necessita de unidade e essa unidade - cultural e linguística - possibilita a identificação dos indivíduos como cidadãos. E durante esse processo que se difunde de maneira oficial a ideia de língua materna e ela funciona como fator de unidade e símbolo de identidade."

ORLANDI (p. 12-13) aponta para a força do simbolismo expresso pelo discurso fundador, que, segundo a autora:

"vai nos inventando um passado inequívoco [...] que dá a sensação de estarmos dentro de uma história [...] São enunciados que ecoam e reverberam efeitos de nossa história em nosso dia a dia, em nossa reconstrução cotidiana de nossos laços sociais, em nossa identidade histórica [...] são espaços de identidade histórica: é memória temporalizada, que se apresenta como institucional, legítima. [Esses discursos] nos constroem um imaginário social que nos permite fazer parte de um país, de um Estado, de uma história e de uma formação social determinada."

A pesquisadora (idem, p. 13) adverte, porém, para o viés essencialmente ideológico e simbólico desse discurso:

"Não estamos pensando a história dos fatos, e sim o processo simbólico [...] é a memória histórica que se faz pela 'filiação'. Aquela na qual, ao significar, nos significamos."

A partir do discurso fundador hegemonicamente instituído, naturaliza-se a concepção de uma língua nacional como o idioma da "união" e do "congraçamento" entre os cidadãos, uma espécie de património linguístico compartilhado que pairaria acima de distinções étnicas, sociais, históricas, culturais e até mesmo de outros falares que coexistam no seio da nação.

Com o surgimento e a consolidação dos Estados nacionais europeus, vão consolidando-se também as línguas portuguesa, espanhola, inglesa, francesa, entre outras. Fica o latim, nesse contexto histórico, portanto, relegado a um esquecimento paulatino e inexorável. Contudo, a influência ideológica (de origem grega) da gramática latina vai pautar a confecção dos primeiros compêndios normativos das línguas nacionais europeias7, encontrando-se essa concepção teórica presente até os dias de hoje em nossas gramáticas tradicionais, que, ao privilegiarem a língua escrita literária de autores clássicos do passado, ignoram as modalidades linguísticas empregadas pela maioria da população, as quais, ao contrário do que pressupõe a tradição gramatical, constituem estruturas que seguem regras perfeitamente sistemáticas e recorrentes, não representando, portanto, nada de "errado" - tratando-se apenas de variações da língua efetivamente empregadas pelos falantes. Usos linguísticos não contemplados pela gramática tradicional não constituem erros; simplesmente não tiveram o beneplácito ou o galardão do incensamento dos donos do poder, que estabelecem hegemonicamente a sua concepção linguística como a norma de prestígio social.

Em relação à elaboração de gramáticas vernaculares a partir do modelo greco-latino, COLOMBAT et al (p. 142) assinalam о seguinte:

"As primeiras descrições dos vernáculos foram elaboradas a partir de um fenômeno de transferência dos conceitos e métodos de análises preparados pela tradição greco-latina, dos quais seus autores estavam impregnados [...] Nós encontramos aqui, então, o registro da bricolagem que não exclui contraditoriamente nem a inovação, nem mesmo a invenção, tornadas necessárias, ou mesmo inevitáveis, para as realidades novas, nem a reprodução piamente respeitosa."

Predominou nos círculos intelectuais do século XVII, na Europa, a concepção iluminista de culto à racionalidade humana. Tentava-se, à época, por meio do culto à razão, renegar o ideário medieval, que se pautava ideologicamente pelo misticismo religioso de cunho católico, com suas fogueiras inquisitoriais e toda a sorte de mecanismos nefastos e opressivos de sustentação e manutenção do prestigioso e influente poder eclesiástico.

O ser humano, segundo os preceitos iluministas, deveria orientar-se exclusivamente por sua razão, e não por pretensas entidades metafísicas que habitariam um inefável e inescrutável mundo do além. Ao modelo teocêntrico medieval (o Deus católico, apostólico e romano como medida de todas as coisas) contrapunha- se, no chamado "Século das Luzes", o ideal antropocêntrico da era moderna: o ser humano, guiado pela razão, como senhor de seu destino.

A noção de racionalidade como uma característica inata dos seres humanos estendeu-se, por sua vez, aos estudos gramaticais de então. Sendo a linguagem concebida à época como a manifestação da razão, procurou-se elaborar uma gramática que traduzisse tal racionalidade linguisticamente. Pressupunham os iluministas que as categorias gramaticais da língua constituiriam derivações da razão humana8.

Surgiram dessa concepção setecentista as chamadas gramáticas gerais, racionais ou filosóficas, que não se limitavam a estudar exclusivamente determinada língua, mas sim procuravam expor os mecanismos universais com que a razão se manifestaria por meio das várias línguas naturais. Para os gramáticos do século XVII, haveria um substrato lógico e racional comum a todas as línguas existentes. Segundo AZEREDO (2015, p. 200), "revivendo a tradição especulativa, as gramáticas filosóficas reafirmavam a hipótese da isomorfia entre pensamento e linguagem e radicalizavam a tese de que as línguas são expressões de uma organização mental universal na espécie humana", o mais famoso desses tratados é a Gramática de Port-Royal ou gramática geral e razoada, publicada em 1660 pelos franceses Antoine Arnauld e Claude Lancelot.

A concepção de que as diferentes línguas são estruturadas por princípios gerais e comuns à racionalidade humana será resgatada pelo linguista estadunidense Noam Chomsky9, em meados do século XX, com sua teoria da gramática gerativa, que propõe a existência de uma gramática universal (conjunto de princípios estruturantes gerais a partir dos quais todas as línguas humanas derivariam) como uma dotação genética e, portanto, hereditária de nossa espécie. Chomsky, assim, muda o foco da análise linguística: da racionalidade para a genética.

No século XIX, os estudos acerca da linguagem dão uma guinada em direção à evolução histórica das línguas. Época caracterizada pelo cientificismo, pela "volta ao passado" tão propugnada pelos escritores do Romantismo europeu e, sobretudo, pela revolucionária teoria evolucionista do inglês Charles Darwin, também nas pesquisas a respeito da natureza da linguagem humana enveredou-se pelos estudos evolutivos e comparativos das principais línguas de cultura com o objetivo de identificar-lhes as semelhanças estruturais e assim, por meio do método histórico- comparativo, retroceder até encontrar a língua primeira ou a língua- mãe, que, supunha-se, seria o proto-indo-europeu. Procurou-se descortinar no século XIX, portanto, uma espécie de genealogia linguística.

A concepção de uma origem comum a todas as línguas humanas, no entanto, não constitui pensamento original e exclusivo do século XIX, uma vez que proposições nesse sentido já tinham sido aventadas em épocas anteriores, como nos relata VIARO (p. 26):

"Por causa das grandes navegações, muitos europeus do século 16 se viam em terras longínquas, nunca antes exploradas e o impacto da diferença linguística e cultural de povos recém-conquistados nunca foi tão grande na história da humanidade [...] É desse período o surgimento dos primeiros estudos comparativos de línguas e também das primeiras propostas de língua- mãe."

Nesse sentido, COLOMBAT et ai (p. 198) observam a respeito dos estudos histórico-comparativos empreendidos ao longo do século XIX:

"Antes de focalizar a atenção sobre a revolução metodológica do século XIX, devemos observar que o 'século romântico 'não inventa essa problemática comparativa, nem a forma histórica que ela lhe dá. Seria mais justo dizer que a história comparada das línguas do século XIX é simultaneamente: a) término de um longo processo começado no XVI (o processo de gramaticalização das línguas do mundo); e b) o resultado de um crescimento assintótico dos dados."

Em relação aos estudos linguísticos do século XIX, destacamos as palavras de MUSS ALIM (p. 27):

"O século XIX em Linguística caracterizou-se pelos estudos compar ativistas e históricos da língua. Esses estudos desenvolveram um método de manipulação de dados linguísticos enquanto dados linguísticos e trataram, pela primeira vez, a linguagem em si mesma e por si mesma, sem abordá-la em função de outros projetos, ou seja, sem subordiná-la ao estudo da retórica, da lógica, da poética ou da filosofia."

O século XIX caracterizou-se, portanto, pelo estudo histórico, comparativo e evolutivo das línguas humanas10, e foi justamente a partir dessa investigação metódica da estrutura interna dos sistemas linguísticos, com o objetivo de descrever seus mecanismos de mudança ao longo do tempo e desvendar-lhes a evolução, é que nasceu, no início do século XX, a moderna ciência linguística, a partir sobretudo dos estudos atribuídos ao suíço Ferdinand de Saussure, organizados na obra póstuma seminal Curso de Linguística Geral, marco da Linguística contemporânea11.

A preocupação de Saussure consiste em privilegiar, por meio de um método científico e com referencial teórico específico, a estrutura interna dos sistemas linguísticos. Para o eminente linguista (SAUSSURE, p. 24-25), os estudos acerca da língua deveriam essencialmente seguir o seguinte preceito:

"Necessário se faz estudar a língua em si. Até agora a língua sempre foi abordada em função de outra coisa, sob outros pontos de vista." (Destaque nosso)

Segundo CASTILHO (p. 45), tais postulações "libertaram a Linguística da relação de dependência que ela vinha mantendo com a Lógica, a Historia e a Literatura", ou seja, Saussure contribui para estabelecer as bases da ciência linguística, cujo objeto de estudo seria a língua enquanto sistema de comunicação entre os falantes.

Saussure propôs que o estudo da língua se pautasse por uma perspectiva internalista, de viés abstrato e sistémico, com foco exclusivamente no modo como ela se apresenta estabelecida ou organizada para possibilitar a comunicação efetiva entre os falantes. Impulsiona, assim, as bases para a fundação da Linguística sincrónica ou estrutural, em contraposição à perspectiva histórica hegemónica no século XIX.12

A preocupação saussuriana consiste em desvelar os mecanismos gerais e abstratos de estruturação e funcionamento que subjazem às várias línguas humanas, uma vez que, em meio à sua diversidade, há princípios universais de estruturação que são comuns a todas elas - e a descrição desses fundamentos gerais das línguas constitui o objetivo da ciência linguística.

A partir dessas proposições consolida-se o estudo do sistema linguístico como uma investigação pautada por métodos científicos. Saussure procurou estabelecer um referencial teórico, amparado por uma metodologia científica, que visasse a descrever o funcionamento das línguas humanas em geral. Tal perspectiva representou, sobretudo, uma revolução nos estudos da linguagem, pois, lembremos, antes dessa época, a língua escrita (sobretudo a literária), encastelada em grossos compêndios livrescos e inacessível ao comum dos mortais, era basicamente a única considerada digna de prestígio e, portanto, de estudo.

Na trilha aberta pelos estudos histórico-comparativos do século XIX, que focavam a estrutura interna dos sistemas linguísticos, Saussure propôs que a pesquisa linguística se pautasse por um caráter descritivo ou sincrónico, e não mais normativo ou histórico, como a tradição ocidental, desde os antigos filólogos alexandrinos, concebe e valora até os dias de hoje os estudos acerca da linguagem.13

Não se pretende aqui, no entanto, atribuir a Saussure o pioneirismo exclusivo de tais pontos de vista epistemológicos e metodológicos, uma vez que antes dele vários estudiosos da linguagem já aplicavam procedimentos típicos da linguística moderna. Alguns autores, inclusive, relativizam o exagerado incensamento que se faz ao afamado linguista suíço, alcunhado por muitos como o "Pai da Linguística Moderna". Vejamos o que nos diz a respeito BAGNO (p. 53-54):

"Alguns fatores históricos explicam o sucesso da linguística estruturalista na primeira metade do século XX. Podemos começar mencionando um forte sentimento antigermánico que imperava na Europa no final do século XIX e início do XX, decorrente das pretensões expansionistas da Alemanha e que culminaram na eclosão da I Guerra Mundial (1914-1918). Por isso é que, ao término da II Guerra Mundial (1945), Saussure começou a ser considerado como o 'pai da linguística moderna, um título que até hoje os linguistas alemães se recusam a atribuir ao pensador suíço, uma vez que é perfeitamente possível vincular as origens da linguística moderna ao trabalho dos comparatistas e dos neogramáticos, fundadores da linguística histórica, cujos nomes mais importantes são todos alemães [...] Saussure estudou em Leipzig e em Berlim, antes de retornar a sua Genebra natal para dar seus famosos cursos. Sua formação, portanto, se fez toda na Alemanha, nas escolas de pensamento linguístico que predominavam naquele país.

[...]

Muitos desses filólogos e linguistas são, reconhecidamente ou não, devedores dos trabalhos pioneiros do dinamarquês Rasmus Rask (1787-1832), talvez o verdadeiro merecedor do título de fundador da ciência linguística moderna, com suas intuições brilhantes e suas pesquisas de campo, absolutamente inovadoras para a época, em que os filólogos se limitavam a pesquisas de gabinete, debruçados sobre os manuscritos antigos."

Gostaríamos de ressaltar que, ao tomar Saussure como paradigma da instauração da moderna ciência linguística - como faz a tradição dos estudos da linguagem -, destaca-se a importância das influências histórica e simbólica de sua insistente argumentação em defesa da consolidação de uma ciência autónoma da linguagem, o próprio Saussure, avesso que era aos holofotes, certamente se sentiria incomodado com o título de "fundador da Linguística Moderna", que lhe puseram postumamente.

O filósofo e pensador russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) empreendeu uma crítica consistente ao enfoque racionalista em voga na Linguística do começo do século XX, tendência a que chamou de "objetivismo abstrato". Para Bakhtin, a língua, na perspectiva estruturalista, constituiria um sistema abstrato e autónomo de regras a pairar incólume e infensa às contingências dos arranjos social e histórico que a engendram e constituem. Na contramão da perspectiva internalista e autónoma da linguagem, a análise bakhtiniana envereda pelo enfoque dialógico, e portanto dialético, ou seja, encara o fenômeno linguístico como produto da interação entre sujeitos inseridos em determinada ambiência social e histórica e, ao mesmo tempo, como uma entidade constituidora dos diversos eventos sociais concretos e situados no curso da história humana.

Concebe-se, assim, a língua como um fenômeno perpassado pelo ideológico, uma vez que se a entende um produto de uma sociedade concretamente estabelecida num determinado momento histórico, decorrendo a eficácia comunicativa do sistema linguístico, fundamentalmente, da interação entre sujeitos concretos e situados na história. Nesse sentido, para BAKHTIN (p. 35):

Os signos só podem aparecer em um terreno interindividual. Não basta colocar face a face duas pessoas para que os signos se constituam. E fundamental que esses dois indivíduos estejam socialmente organizados, que formem um grupo: só assim um sistema de signos pode constituir-se [...] Todo signo resulta de um consenso entre indivíduos socialmente organizados no decorrer de um processo de interação. As formas do signo são condicionadas tanto pela organização social dos indivíduos como pelas condições em que a interação acontece [...] o signo linguístico vê-se marcado pelo horizonte social de uma época e de um grupo social determinados, o signo se cria entre indivíduos, no meio social."

Pressupõe essa crítica ao estruturalismo ser insuficiente, a uma concepção abrangente e realista do fenômeno linguístico, a análise de sua estrutura como um sistema abstrato de regras, fechado em si mesmo, dotado de uma suposta autonomia em relação ao meio social em que é empregado em contextos enunciativos concretos e ideologicamente condicionados. Para o pensador russo (p. 32), "o domínio do ideológico coincide com o domínio dos signos; ali onde o signo se encontra, encontra-se também o ideológico". Tal perspectiva, no entanto, não seria levada em consideração pela corrente estruturalista e objetivista da Linguística, que desconsideraria a trama social viva, complexa e dinâmica em que todo sistema linguístico encontra seu nascedouro.

Em sua crítica à visão estruturalista da Linguística, BAKHTIN (p. 69) argumenta que:

״o estudo da face sonora do signo ocupa, na Linguística, um lugar proporcionalmente exagerado. Tal estudo muitas vezes é feito sem nenhum vínculo com a natureza real da linguagem enquanto código ideológico [...] A ideia de uma língua convencional, arbitrária, é característica de toda corrente racionalista da Linguística. Segundo essas correntes, o que interessa não é a relação do signo com a realidade por ele refletida ou com o indivíduo que o engendra, mas a relação de signo para signo no interior de um sistema fechado. A essas correntes racionalistas só interessa a lògica interna do pròprio sistema de signos; este é considerado independentemente das significações ideológicas que a eles se ligam [...] A 'Escola de Genebra', com Ferdinand de Saussure, mostra­se como a mais brilhante expressão desse objetivismo abstrato." (Destaque nosso)

O "objetivismo abstrato" desconsidera, por exemplo, a faceta histórico-social da linguagem, que, em última instância, representa o fator determinante da constituição de qualquer sistema linguístico, uma vez que a língua se faz no seu uso cotidiano entre sujeitos históricos. O estruturalismo procura dar conta do "como funciona", mas desconsidera o "porquê" da constituição dos sistemas linguísticos, como se o estudo da estrutura da língua constituísse um fim em si mesmo e nada tivesse a ver com a trama viva das relações sociais, em que a linguagem se materializa e viceja segundo propósitos interacionistas eivados de determinações ideológicas.

Em sua crítica ao formalismo linguístico, MARCUSCHI (p. 20) observa que:

"Todas as nossas manifestações verbais mediante a língua se dão como textos e não como elementos linguísticos isolados. Toda manifestação linguística se dá como discurso, isto é, uma totalidade viva e concreta da língua e não como uma abstração formal que se tornou o objeto preferido e legítimo da Linguística [...] o funcionamento da língua não se esgota nem se dá essencialmente no sistema formal d (Destaque nosso)

Segundo COLOMB AT et ai (p. 256):

"A história recente dá o sentimento de que as teorias linguísticas, as problemáticas visualizadas pelos linguistas depois do estruturalismo, são caracterizadas por um retorno ao que é precisamente excluído por Saussure: o contexto sob todas as suas formas, e o sujeito, através da construção de uma linguística da fala ou do discurso [...] Um consenso parece então animar os linguistas contra o isolamento saussuriano, para tentar reparar esse tipo de ferida narcisistica infligida pelo mestre de Genebra, o sujeito desprovido da língua, a língua pensada sem o sujeito."

O estruturalismo passa também ao largo de um processo fundamental e constitutivo da linguagem humana: a variação a que estão inevitavelmente sujeitas todas as línguas naturais. Ao conceber o sistema linguístico como um objeto autónomo, homogéneo e abstrato, a linguística estruturalista desconsidera essa característica inerente às línguas em geral. Assim sendo, uma análise meramente formalista não dá conta de explicar diversos fenômenos que se processam nas diversas línguas, entre eles a inevitável variação a que elas estão sujeitas em função das inúmeras variáveis sociais.

O estadunidense William Labov, um dos pioneiros no estudo da variação linguística, demonstrou em suas pesquisas as regularidades das variações e mudanças linguísticas a partir da análise de determinadas variáveis sociais como classe, gênero e etnia, por exemplo. Para LABOV (p. 20-21):

"Uma abordagem que considera apenas as pressões estruturais [sistémicas] dificilmente pode contar a história toda [...] nenhuma mudança acontece num vácuo social [...] não se pode entender o desenvolvimento de uma mudança linguística sem levar em conta a vida social da comunidade em que ela ocorre. As pressões sociais estão operando continuamente sobre a língua." (Destaque nosso)

Afirmar que a língua sofre variação não significa dizer, no entanto, que não haja um sistema estruturado a regular nossa linguagem cotidiana. Os estudos empreendidos por Labov e por toda a corrente sociolinguística que a ele se seguiu apontam para o fato de que há sistema dentro da variação e que as mudanças que ocorrem na língua seguem determinados princípios estabelecidos pelas variáveis sociais. Labov critica o estmturalismo pelo fato de essa tendência identificar estrutura com homogeneidade da língua e, consequentemente, desconsiderar as variações e as mudanças a que estão sujeitos os sistemas linguísticos. Com Labov aprendemos que as variações e as mudanças constituem fenômenos constantes, regulares, naturais e intrínsecos a todas as línguas humanas. Constituindo o sistema linguístico uma forma de comportamento social, sua estrutura vai refletir, obviamente, toda a complexidade, adaptabilidade e dinamicidade da vida em sociedade.

Como se pode constatar desta breve exposição acerca da história dos principais estudos sobre a linguagem até meados do século XX, nossa ciência tem um milenar legado de investigações acerca do fenômeno linguístico e um revolucionário caminho ainda a trilhar na tarefa da desconstrução de uma concepção epistemológica que desvincula a língua do contexto demasiadamente humano que a constitui e que por ela é constituído. Não nos esqueçamos jamais de que humanidade e linguagem constituem realidades indissociáveis e, portanto, siamesas.

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1 Nesse sentido, fazemos nossas as indagações de PAIVA (p. 1): "Сото е quando а linguagem 'aconteceu', quem foram os felizes contemplados com tal 'inovação' e por quê? Questões para as quais muitos almejam respostas. Contudo, algumas dessas respostas parecem teimar em permanecer na bruma de uma qualquer manhã".

2 Ao ressaltarmos as diferenças entre a linguagem humana e a dos outros animais, não pretendemos compactuar com a concepção antropocentrica que o ego humano estabeleceu para si próprio como o suprassumo da evolução. Segundo OTSU (p. 69): "Temos uma visão antropocentrica da realidade. Achamos que o ser humano é o centro de tudo. N0 século V a. c, o filósofo grego Protágoras disse: Ό homem é a medida de todas as coisas'. Essa forma de pensar foi reforçada por milénios, e hoje a Ciência cumpre o papel de guardiã dessa perspectiva narcisista". Nossa linguagem não se revela "melhor" do que a dos demais seres - revela-se diferente apenas. A linguagem humana é como é simplesmente em virtude de contingências cognitivas que a vida em sociedade impôs ao longo do processo evolutivo de nossa espécie, e sua alta complexidade não significa que a linguagem dos outros viventes seja "precária", "insuficiente" ou que apresente "desvantagens" evolutivas, uma vez que qualquer espécie existente representa uma forma de vida plenamente adaptada em relação à evolução - e nesse ponto lembremo-nos do poeta Fernando PESSOA (p. 234): "Basta existir para ser completo", o que se aplica a todos os seres e suas respectivas linguagens, indistintamente.

3 Segundo HOUAISS (p. 1474 e 1561), o vocábulo "gramática" é proveniente do grego "gramma" ('caráter de escrita', 'letra') e "-ica", sufixo formador de substantivos designativos de "artes, ciências, técnicas", como se observa também em "informática", "semiótica", "matemática", "física", "linguística", "semântica", etc. A gramática, na concepção dos filólogos alexandrinos, vincula-se estreitamente à modalidade escrita literária da língua.

4 Segundo COLOMBAI et al (p.264): "Não se deve acreditar que os latinos se agarraram a esse modelo porque eles eram incapazes de imaginar outra coisa - um Varrão, por exemplo, mostrou-se capaz de desenvolver um pensamento original -, mas porque, quando se dispõe de alguma coisa que 'funciona', deve-se esforçar-se para guardá-la, fazendo-lhe simplesmente passar pelas adaptações necessárias".

5 Segundo COLOMBAI et al (p.105), "a gramática em Roma é uma importação grega, o latim pôde ser descrito de maneira sistemática com a ajuda das categorias feitas para o grego".

6 Por vernáculo, entenda-se "a fala corrente, do dia a dia, numa determinada comunidade" (TRASK, p. 304).

7 Em relação à influência da gramática latina na confecção das primeiras gramáticas do português, observam VILLALVA e SILVESTRE (p. 38): "Na Grammatica da lingua portuguesa de João de Barros 1540 explicita-se que, na comparação das línguas modernas, a melhor e mais elegante é a 'que se mais conforma com a latina'."

8 Segundo pensador escocês James Beattie (1735-1803): "os princípios da gramática formam uma parte importante, e muito curiosa, da filosofia da mente humana" (apud CHOMSKY, p. 143).

9 A concepção linguística de Chomsky não será abordada neste texto, pois a ela dedicamos um capítulo exclusivo.

10

11 Saussure faleceu em 1913; seus ensinamentos foram reunidos postumamente por Charles Bally e Albert Séchehaye, a partir das anotações dos famosos cursos do mestre na Universidade de Genebra (1907-1911), no livro a que se deu o nome de Curso ãe Linguística Geral, publicado em 1916. Em relação a esse opúsculo seminal, deve-se atentar, no entanto, para a observação de ARRIVÉ (p. 20) de que Saussure "não publicou o que escreveu e não escreveu o que foi publicado sob seu nome". Faz-se necessário, portanto, comparar o Curso com o que nos chegou dos manuscritos do autor para que possamos traçar um panorama de sua teoria linguística.

12 BYBEE (p. 2) assim descreve a relevância dos estudos estruturalistas, estabelecidos sobretudo a partir dos pressupostos saussurianos, para a consolidação do método científico nos estudos linguísticos: "The focus on competence, or the structure of language, turned out to be extremely productive. Structuralism provided linguistics with a workshop of analytic tools for breaking down the continuous speech stream into units, and these units into features; structuralism postulated hierarchical relations among the units and assigned structures to different levels of grammar, organizing language and the people who study it into subfields - phonology, morphology, syntax, and semantics".

13 Segundo ROCHA (p. 26), "a filologia, por ser um estudo essencialmente histórico, introduziu nas pesquisas linguísticas a obrigatoriedade de uma abordagem diacrònica [...] essa visão essencialmente histórica dos estudos linguísticos privou os estudiosos de observações sobre o funcionamento da língua em uso" e, lembremos, a "língua em uso" constitui o objeto da descrição ciência linguística.

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24
Jahr
2018
ISBN (Buch)
9783668739246
Dateigröße
497 KB
Sprache
Portugiesisch
Katalognummer
v415971
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Schlagworte
Linguistics History Introduction to Linguistics

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Titel: De Panini a Labov. Um Breve Passeio pela História dos Estudos Linguísticos